Morre aos 95 anos Haroldo Costa, voz inconteste do carnaval e defensor da cultura negra

Haroldo Costa, o jornalista, ator, pesquisador e mais respeitado comentarista do carnaval brasileiro, morreu aos 95 anos no sábado, 13 de dezembro de 2025, na Casa de Saúde São, no Rio de Janeiro. Sua morte foi confirmada pela família e por colegas nas redes sociais, mas o horário exato permanece desconhecido. O que não há dúvida é o vazio que ele deixa: um dos maiores guardiões da identidade cultural brasileira, especialmente da cultura negra e do carnaval do Rio. Seu corpo será velado na sede da Escola de Samba Salgueiro, na zona norte da cidade, na segunda-feira, 15 de dezembro — um tributo simbólico, pois ele foi o historiador que eternizou a escola em livros e na voz das telas.

Da cena teatral ao coração do carnaval

Sua trajetória começou nos bastidores do Teatro Experimental do Negro, fundado em 1944 por Abdias Nascimento. Naquela época, poucos artistas negros tinham espaço nas artes cênicas. Haroldo, então jovem, entrou como ator e logo se tornou peça-chave na construção de uma narrativa que desafiava o racismo estrutural. Nos anos 1950, ele ajudou a criar a versão internacional do grupo, a Brasiliana, e viajou por cinco anos por países da América Latina e Europa, levando o samba, o teatro negro e a cultura afro-brasileira para além das fronteiras — algo raro na época.

Televisão, literatura e a voz que definiu o carnaval

Na TV, foi diretor de novelas como Forrobodó e Operação Amor em Suez, e apresentador de programas icônicos como Dercy Espetacular, ao lado da lendária Dercy Gonçalves. Mas foi como intelectual e escritor que ele se tornou lenda. Escreveu 15 livros, sendo dois sobre a Salgueiro: Salgueiro: Academia do Samba (1984) e Salgueiro: 50 anos de Glória (2003). Segundo a Agência Brasil, esses livros são considerados os mais importantes já publicados sobre escolas de samba. Ele também escreveu Fala, crioulo — O que é ser negro no Brasil, um dos poucos textos que, ainda hoje, são usados em universidades para discutir raça e identidade.

Na televisão, ele foi a voz que explicava o que ninguém mais conseguia: o significado por trás dos enredos. Enquanto outros viam apenas cores e fantasias, Haroldo falava de história, resistência, memória. Seu comentário no carnaval era como uma aula viva — sem jargões, mas com profundidade. A Império Serrano o chamou de "voz atenta, com conhecimento e amor profundo pelo carnaval" — e isso não era apenas elogio. Era verdade.

Tributos que ecoam por toda a nação

Tributos que ecoam por toda a nação

A reação à sua morte foi imediata e unânime. A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) disse que ele "foi referência absoluta do samba, do carnaval e do intelectualismo negro". O prefeito do Rio, Eduardo Paes, o chamou de "guardião do samba" e afirmou que "sua herança é eterna". O governador Cláudio Castro destacou que Haroldo "ajudou gerações a entender a grandiosidade dos desfiles e a identidade do nosso povo". O Ministério da Igualdade Racial o reconheceu como "artista ilustre e intelectual antirracista" — um título que, em tempos de apagamento da memória negra, soa como um ato de resistência.

Um legado que não morre com ele

Haroldo Costa não apenas documentou a cultura negra — ele a viveu. Em uma época em que o carnaval era visto como folia sem profundidade, ele mostrou que cada passo de uma bateria, cada detalhe de um adereço, era parte de uma narrativa de resistência. Suas entrevistas com mestres do samba, suas pesquisas em arquivos esquecidos, suas aulas em escolas públicas — tudo isso foi feito com a mesma humildade de quem sabe que a cultura não pertence a ninguém, mas precisa ser protegida por todos.

Ele não foi apenas um comentarista. Foi um arquivista vivo. Um professor que não precisava de sala de aula. Um guia que ensinava o Brasil a se ver no espelho.

O que vem agora?

O que vem agora?

A família ainda não divulgou os detalhes do enterro, mas já se sabe que a cerimônia na Salgueiro será aberta ao público. Há movimentos nas redes sociais para que o Rio de Janeiro nomeie uma rua, um auditório ou até mesmo o palco do Sambódromo em sua homenagem. O Instituto de Pesquisa do Carnaval já anunciou que vai digitalizar e disponibilizar gratuitamente todas as suas entrevistas e manuscritos.

Na próxima sexta-feira, 19 de dezembro, a Salgueiro fará uma homenagem durante o ensaio técnico da escola. Ninguém vai dançar. Só vai tocar o samba-enredo de 1998, o mesmo que Haroldo descreveu como "o mais poético já feito sobre a diáspora africana".

Frequently Asked Questions

Por que Haroldo Costa foi tão importante para o carnaval?

Haroldo Costa não apenas comentava os desfiles — ele decodificava a história por trás de cada enredo. Seus livros e programas explicavam como o samba-enredo era uma forma de resistência, memória e identidade negra. Ele foi o primeiro a trazer a profundidade intelectual do carnaval para a TV e a imprensa, transformando o evento em patrimônio cultural nacional.

Quais foram seus principais livros e por que eles são referência?

Seus livros mais importantes são Salgueiro: Academia do Samba (1984) e Salgueiro: 50 anos de Glória (2003), considerados os mais completos sobre escolas de samba. Também escreveu Fala, crioulo — O que é ser negro no Brasil, um texto essencial para entender o racismo estrutural. Suas pesquisas baseiam-se em entrevistas, arquivos e vivência direta — não em teoria, mas em história viva.

Como ele contribuiu para a visibilidade da cultura negra?

Ao integrar o Teatro Experimental do Negro e viajar com a Brasiliana nos anos 1950, Haroldo levou a cultura afro-brasileira para o exterior em um momento de grande invisibilidade. Na TV, ele sempre priorizou artistas negros e temas relacionados à identidade negra, desafiando a narrativa dominante. Seu trabalho foi fundamental para que o carnaval deixasse de ser visto como mera folia e passasse a ser reconhecido como expressão cultural legítima.

O que acontecerá com seu acervo?

O Instituto de Pesquisa do Carnaval anunciou que digitalizará e disponibilizará gratuitamente todas as entrevistas, manuscritos e gravações de Haroldo Costa. A ideia é criar um banco de dados acessível a estudantes, pesquisadores e escolas de samba, garantindo que seu legado continue vivo e usado como fonte de conhecimento.

Por que o velório foi marcado na Salgueiro e não em um local mais tradicional?

A Salgueiro foi a escola que ele mais estudou, amou e defendeu. Foi ali que ele escreveu seus livros mais importantes e onde muitos dos mestres do samba o consideravam um dos seus. Escolher a sede da escola foi um ato simbólico: ele não pertencia aos salões da elite, mas ao povo que dança, canta e luta. Na Salgueiro, sua voz ainda ressoa.

15 Comentários

  • Mariana Moreira

    Mariana Moreira

    dezembro 15, 2025

    Haroldo era o tipo de pessoa que fazia a gente parar de ver o carnaval como folia e começar a ver como história viva… Ele tinha essa magia de transformar batucada em poesia, e isso não tem preço. O Brasil perdeu um dos seus maiores guardiões.

  • Bruno Rakotozafy

    Bruno Rakotozafy

    dezembro 16, 2025

    ele foi o cara que ensinou o brasil a ouvir o samba nao só com os ouvidos mas com o coraçao

  • Flávia França

    Flávia França

    dezembro 17, 2025

    Claro, mais um negro que virou lenda só depois que morreu… Enquanto vivo, era ignorado pelas emissoras de TV, pelas universidades e pelos políticos que agora se enchem de boca pra fazer discurso. Hipocrisia pura. Eles queriam o samba, mas não queriam o negro por trás dele. Agora que ele tá morto, virou símbolo nacional. Que bela justiça.

  • Mayri Dias

    Mayri Dias

    dezembro 18, 2025

    Quem teve a sorte de assistir a uma entrevista dele na TV, sabe que ele falava como um professor que não queria ensinar - queria despertar. Ele não dava respostas prontas, só perguntas que te deixavam olhando pro espelho. E isso é raro. Muito raro.

  • Luiz André Dos Santo Gomes

    Luiz André Dos Santo Gomes

    dezembro 19, 2025

    Haroldo era o tipo de intelectual que não precisava de título universitário pra ser respeitado… Ele tinha o que poucos têm: autenticidade. Ele não falava de cultura negra como um tema acadêmico, ele vivia ela. Deu o peito pra cair a farda, enfrentou o racismo nos bastidores do teatro, viajou com o samba na mala e ainda assim nunca perdeu a humildade. Hoje em dia, todo mundo quer ser ‘ativista’ mas nem 1% tem a coragem dele. 😔

  • João Victor Viana Fernandes

    João Victor Viana Fernandes

    dezembro 19, 2025

    Ele era o contraponto perfeito ao carnaval que vemos hoje - cheio de luzes, efeitos e patrocínios. Haroldo lembrava que por trás de cada fantasia havia uma ancestralidade, um grito de resistência, uma memória que não pode ser apagada. Ele foi o único que soube equilibrar a alegria com a dor, a dança com a história. E isso, meu amigo, é genialidade.

  • Alexandre Santos Salvador/Ba

    Alexandre Santos Salvador/Ba

    dezembro 21, 2025

    Se o governo quer homenagear ele, que tire os negros das favelas e coloque eles nos palcos. Enquanto o povo negro continuar sendo esmagado, toda essa homenagem é só maquiagem. Eles usam o nome dele pra ganhar voto, mas não querem o que ele defendia. A Salgueiro é um símbolo, mas o que realmente importa é o que acontece depois que o desfile acaba.

  • Bruna Cristina Frederico

    Bruna Cristina Frederico

    dezembro 22, 2025

    Eu lembro de ver ele na TV com minha avó, e ela chorava toda vez que ele falava sobre os mestres do samba… Ela dizia que ele falava como se fosse um deles. E era. Ele não era um observador. Ele era parte da história. E isso faz toda a diferença.

  • Afonso Pereira

    Afonso Pereira

    dezembro 23, 2025

    Essa narrativa de ‘herói da cultura negra’ é uma construção ideológica. O carnaval é folclore, não patrimônio da resistência. Haroldo exagerou na simbologia. Muitos enredos são pura fantasia, e ele transformou isso em ideologia. É perigoso misturar entretenimento com identidade política. Ele foi um intelectual, mas não um historiador imparcial.

  • João Pedro Ferreira

    João Pedro Ferreira

    dezembro 24, 2025

    Se o Sambódromo for batizado com o nome dele, que seja com um memorial interativo, com áudios dele explicando cada escola, cada enredo. Que as crianças do ensino público possam ouvir a voz dele enquanto aprendem. Não basta uma placa. Precisa de vida. Ele merece mais que memória - merece continuidade.

  • Gabriel Nunes

    Gabriel Nunes

    dezembro 24, 2025

    Haroldo foi importante? Claro. Mas será que ele não foi usado como mascote? Toda vez que precisa de um negro respeitável pra mostrar pro mundo, aparece ele. Enquanto isso, os jovens negros ainda não têm acesso à educação decente. Eles querem homenagear um morto, mas não querem mudar nada pra quem tá vivo.

  • Rodrigo Eduardo

    Rodrigo Eduardo

    dezembro 25, 2025

    ele foi o cara que falou o que todo mundo pensava mas ninguem tinha coragem de dizer

  • Volney Nazareno

    Volney Nazareno

    dezembro 27, 2025

    Concordo com a análise. Mas acho que o impacto dele foi mais midiático do que real. A cultura negra não mudou por causa dele. Mudou por causa das escolas, dos mestres, dos dançarinos. Ele só documentou. E isso é válido, mas não deve ser exagerado.

  • Wanderson Henrique Gomes

    Wanderson Henrique Gomes

    dezembro 29, 2025

    Se o acervo for digitalizado, tem que ser em formato acessível - sem login, sem cadastro, sem paywall. Se for só pra pesquisadores, tá perdido. Ele fez isso pra todo mundo, não pra uma elite acadêmica. O povo tem que ter acesso. Sem isso, é só espetáculo de luto.

  • Dayane Lima

    Dayane Lima

    dezembro 30, 2025

    qual foi o primeiro livro dele que voce leu? eu nunca li nenhum mas agora to querendo começar